BIOGRAFIA DE BATUÍRA

Antônio Gonçalves da Silva nasceu português aos 19 de março de 1839 na freguesia das Águas Santas, distrito da Maia. Filhos de humildes camponeses, completou apenas a instrução primária, aportou no Rio de Janeiro em 03 de janeiro de 1850, com apenas 11 anos. Teria vindo com os pais? Que notícia se tem deles?

O que conseguimos reunir de informações até os dias de hoje, não há qualquer referência de seus pais e ele próprio nunca comentara nada a respeito.

Durante três anos (11 aos 14), Batuíra trabalhou no comércio da Capital do Império, quando se mudou para Campinas afim de trabalhar na lavoura e, após curta passagem estabeleceu-se definitivamente em São Paulo.

Deveria ter, então, não mais que dezessete anos, e o ano, por volta de 1856 a população chegava a 30.000 habitantes, o presidente Francisco Diogo de Vasconcelos tinha como preocupação a construção do paço para a assembléia provincial e o andamento das obras do único teatro da cidade. Seu sucessor, Fernando Torres, em 1857, empenhou-se em melhorar o calçamento da cidade, sobretudo da Rua São Bento e das ladeiras que demandavam ao lado, e minorar os defeitos de abastecimento de água. Também ativou as obras do Teatro São José, cuja primeira pedra se lançou a 09 de abril de 1858.

A cidade vivia momentos agitados. Até 1865 teria oito presidentes e cinco vice-presidentes.

O portuguesinho Antônio Gonçalves da Silva procurava integrar-se à vida da cidade. Desde a gestão do presidente Brigadeiro Bernardo José Pinto Gavião Peixoto (1836-1838), a arte tipográfica vinha sendo incentivada em seu desenvolvimento e de 1850 a 1860 quase cem periódicos surgiram em São Paulo, acompanhando o limiar do crescimento da cidade, cujo marco pode ser considerado a instalação dos cursos jurídicos em 1828.

Antônio Gonçalves da Silva, carinhosamente cognominado Batuíra desde jovem, quando ligeiro percorria em 1864, as ruas centenárias da cidade vendendo o jornal A Província de São Paulo a 40 réis.

“Batuíra” era uma das denominações populares da narceja (ave pernalta, ágil e migratória).Humilde, esforçado, trabalhador, Batuíra era um jovem enturmado com outros jovens aquinhoados pela ventura de poder cursar a vida acadêmica, mas nem por isso se fazia menos digno.

Trazendo consigo o espírito cristão, que foi o seu apanágio por toda a vida, o jovem aspirava o ar de sua época e inflamava-se com as idéias de igualdade entre as raças e da luta pela abolição da escravatura. Amar seus irmãos em humanidade, como viria a prodigalizar tanto, anos depois de converter-se ao Espiritismo, significava ignorar os detalhes de raça, cor, nível social, religião e credo político. Foi com naturalidade que se engajou no movimento abolicionista de maneira ativa, junto com Luís Gonzaga Pinto da Gama fundou um jornal (1830-1882),a onde participou ativamente.

Batuíra, também usou a formula de qualificar-se como “Ninguém” ao assinar seus artigos. Eles escondiam os escravos foragidos no Lavapés, junto às casas de Batuíra, até os seus donos estarem prestes a desistir de procurá-los. Procuravam então esses senhores, oferecendo-lhes quantias baixas pelas cartas de alforria, que aceitavam por já terem dados seus escravos como perdidos.

Apesar de suas obras não estarem concluídas o teatro São José foi inaugurado em 04 de setembro de 1864 no largo de São Gonçalo, (atual Praça João Mendes), que era ajardinado e tinha grandes árvores.

Daí deduzir-se a import6ancia da iniciativa de Batuíra ao criar o Teatro da Cruz Preta, como era conhecido não só pelo espaço físico dedicado as artes cênicas, mas pelo próprio incentivo às mesmas. Promovendo a cultura para a população estudantil, estava também cultivando um espaço para o lazer. Seu pioneirismo é incontestável nessa área, tanto é que mereceu citação em obras de historiadores consagrados, dando prova evidente do quanto era querido.

Assinala um desses autores:

Não imaginem que ele tinha então aquela venerandas barbas de apóstolo (e ele o é na verdade) que hoje lhe adornam o rosto, não, embora fizesse geralmente os papéis de “Centro”, não tinha uma figura de espantar crianças, tanto assim que agradava, e que era recebido com palmas e versos, logo que aparecia em cena.

O teatrinho do popular Batuíra fazia, assim, concorrência ao palco do São José, no qual se exibiam atores requisitados, como Joaquim Augusto, João Eloy e Júlio Azevedo.

Um fato desagradável, porém, aconteceu com o ator Batuíra por causa de sua sala de espetáculos. No passado o local foi durante algum tempo utilizado em espetáculos de brigas de galo de raça, atividade então legal e regularizada, em uma reportagem maldosa as atividades de Batuíra ficaram ligadas aquele esporte.

Batuíra então tratou de defender-se imediatamente, publicou no jornal que as tais brigas de galos ocorreram verdadeiramente no passado, mas ao adquirir o prédio para dar lugar ao teatro esta prática nunca mais existiu. Batuíra desfez então qualquer mal entendido, como era homem sério e bem quisto por todos pode voltar então a ter a paz que merecia.

São Paulo entrava, então, na década de setenta do século dezenove. A Lei do Ventre-Livre representava uma vitória e foi bem recebida no meio intelectual paulistano. Em 31 de março de 1872 inaugurou-se a iluminação a gás na cidade.

Como já nos referimos, após estabelecer-se em São Paulo, Batuíra ganhava a vida vendendo jornais e representando no Teatro da Cruz Preta, logo após seu amadurecimento descobriu na fabricação de charutos uma rendosa profissão, que lhe permitiu ter uma vida material mais folgada.

Racionalizando seus ganhos e fazendo economias, Batuíra adquiriu uma desvalorizada gleba de terras na área do Lavapés e ali ergueu sua residência.

Conforme o seu rendimento lhe ia permitindo, Batuíra foi comprando as terras ao redor de sua propriedade, talvez antevendo uma possível valorização. Construía casas de aluguel em seus terrenos, iniciou-se a formação de uma pequena vila, o tempo foi seu sócio. A série de casas que construiu deu origem à Rua Espírita, foi Batuíra o iniciador do bairro do Lavapés, foi ele quem o criou, que lhe deu o primeiro incremento, abrindo ruas, que podemos constatar nos dias de hoje. Firma-se assim a fortuna que Batuíra logrou amealhar e que lhe iria dar suporte material às grandes tarefas que estavam por vir.

Uma nota curiosa é que o bairro do Lavapés só teve esse nome porque existia um pequeno córrego onde os visitantes tinham, antes de entrarem na cidade que lavar seus pés por causa da poeira ou do barro que existia nas margens deste córrego.

O certo mesmo é que foi assim que aquela casinha humilde do Batuíra passou a fazer parte da vida da roceira cidade de São Paulo. Batuíra tornou-se famoso, mas não passava de um homem fulo, grisalho, barbudo, baixote e gorducho, de maus dentes e já na casa dos sessenta. Dele nunca ninguém soube o verdadeiro nome, ou muito menos a sua história. Para todos os efeitos ele era apenas o Doutor Batuíra. Espírita e amigos de todos os sofredores do mundo. Dotado de santas qualidades mediúnicas, a todos, ricos e pobres, Batuíra atendia com a mesma afabilidade. Com todos falava e a todos animava, ou socorria, sempre em nome do Senhor Jesus Cristo.

Seu “Espírito Protetor” chamava-se Pai-Zarabinda, preto velho morto no tronco a fortes golpes de azorrague.

Em 1873 a população se viu atingida de um surto variólico, é nesse triste episódico que é posto à prova o espírito de alta solidariedade que já portava Batuíra de engajar-se entre os voluntários para tratar-lhes as feridas, numa total entrega ao próximo e jamais descuidando um minuto sequer, Batuíra demonstrava como sempre grande agilidade e desembaraço. A varíola é uma doença infecciosa aguda e altamente contagiosa, mas isso não parece preocupar o nosso querido doutor, que abriu as portas de sua casa para colocar os doentes, foi seu médico, enfermeiro e amigo. Não estava sendo forçado a nada, fazia apenas para expressar o seu sentimento mais fraterno o “amor”.

No ano de 1887 um forte terremoto sacudiu a Itália, e foi organizada uma campanha pelos espíritas, que saíram em cortejo pelas ruas da cidade para arrecadarem donativos em favor das vítimas. Como não poderia faltar estava lá presente a pessoa de Batuíra que com enorme sorriso convencia à todos, e de prontidão agradecia a ajuda com gestos de muita gratidão.

As leis planetárias não afetam apenas os espíritos em aprendizado, mas atingem também aos missionários. Batuíra uniu-se em primeiras núpcias a Brandina Maria de Jesus, e enviuvando-se casou-se com Dona Maria das Dores Coutinho e Silva, e desse consórcio nasceu Joaquim Gonçalves Batuíra que nasceu em São Paulo a 15 de maio de 1871 e desencarnou em 23 de maio de 1883, com doze anos completos, vítima de tétano provocado por um prosaico espinho de roseira. O desencarne foi repentino e causou muita comoção na família, principalmente no pai, Batuíra.

O velório aconteceu na ampla sala de sua casa na Rua do Espírita, como era conhecida e chamada antes pelas pessoas. Naquela casa muitos amigos se reuniram para prestar os sentimentos e dar o devido apoio que Batuíra viesse precisar. Batuíra participava de tudo com muito respeito, e em determinado momento se sente inquieto, com seus olhos lacrimejantes, com profunda tristeza o desânimo toma conta dele. Subitamente levanta-se e com olhar distante sai da sala envolto em sua dor, demonstra à todos querer ficar um pouco sozinho. Batuíra caminha para seu quarto onde tranca a porta, passado pouco mais de 30 minutos todos notam a porta abrir. Sua fisionomia estava modificada, a paz estava instalada a onde antes só existia dor e prantos, agora estava tranquilo e resplendoroso. Batuíra chamava a atenção de todos por causa da calma que transmitia, e em bom tom anunciou à todas as pessoas que a partir daquele momento não queria ver uma lágrima sequer sendo derramada pelo filho que não estava morto, mas que vivia ao lado de Jesus em um plano superior e que lá não existia sofrimento algum, só alegrias e o mais puro amor.

Para a surpresa ou espanto de todos Batuíra sai de casa e só volta com uma banda de música, e quando esta começa a tocar, ao invés de músicas fúnebres passou a marchas festivas, valsas, polcas e outras composições alegres.

Para alguns um gracejo, para outros uma heresia e para a maioria um pai enlouquecido pela dor.

Mas como duvidar diante de um homem tão bom, que atendia à todos com tanto amor, como duvidar diante de tamanha fé demonstrada justamente por aquele que sem dúvida era o mais atingido pela perda do filho querido.

Batuíra conta a amigos mais íntimos o que havia acontecido naquele quarto, Deus tinha que dar uma resposta para a minha dor e depois de tanto rezar, foi então que vi uma luz se formando, não era a do candeeiro, e nem o do crepúsculo que ainda penetrava pela janela, esta luz foi se tornando diáfana, vaporosa e um vulto surgiu-me à frente, meus olhos se encheram de lágrimas, a emoção tomou conta por inteiro de todo o meu ser, e eu reconheci naquela luz o meu filho querido, que me sorrindo falou:
“Pai, não fique triste. Eu não morri. Estou mais vivo do que nunca”.

Seu sorriso era doce, seu semblante estava calmo e transmitia muita paz. Em seguida suas mãozinhas acenaram para mim, da mesma maneira que se despedia em vida física, e sua imagem foi suavemente se apagando na tinta gasta da parede, não sei quanto tempo permaneci ali, derramei até as últimas lágrimas de alívio por saber que meu filho havia passado para uma outra vida, e que esta era apenas uma das muitas que ainda temos para cumprir.

A parti daquele dia, mudanças profundas passaram a acontecer com Batuíra, que passou a procurar conhecimento nos livros espíritas.

Conheceu Batuíra, nesta busca, o Dr. Ramos Nogueira, um grande pioneiro do Espiritismo em São Paulo, e passou a frequentar as reuniões práticas e de estudo.

No início de 1890, Batuíra adquiriu uma tipografia, e passou a chamá-la de Tipografia Espírita, em 16 de abril deste mesmo ano Batuíra fundou o Grupo Espírita Verdade e Luz ( trata-se de uma das Entidades Espíritas mais antigas que se mantém em atividade no Estado de São Paulo ), e como nada acontece por acaso, em 25 de maio foi lançado o primeiro número do jornal no formato 26x38 com apenas 04 páginas e 03 colunas, tendo o próprio como editor, com uma tiragem de 03 mil exemplares inicialmente. Haviam então cinco periódicos espíritas circulando no brasil: Reformador ( Rio de Janeiro ); Verdade e Luz ( São Paulo ); O Regenerador ( Belém ); A Luz e a Revista Espírita ( Curitiba ).

Em 15 de agosto de 1894, o Reformador lamentava o desencarne do Dr. Ramos Nogueira.

Assim, o grupo espírita Verdade e Luz só foi ser registrado e ganhar estatutos no ano de 1904. Batuíra era, então, o corpo e a alma do grupo.

A Instituição Beneficente “Verdade e Luz” tem por fim, asilar órfãos de ambos os sexos e fornece-lhes roupas, alimentos, tratamento médico, educação e ensinar-lhes arte ou ofício. Recolher “loucos” e dar-lhes tratamento psicológico gratuito.

Ninguém podia acreditar que um homem abastado podia viver em meio aos pobres, doentes e rejeitados sem nada pedir em troca.

Batuíra assumiu o papel do “moço rico” de Jesus e desapegou-se de sua fortuna pessoal para “perder” a sua vida em favor dos menos favorecidos.

Havia apenas uma particularidade que Batuíra exigia em sua Instituição, que o regime alimentar fosse vegetariano. O teor dos estatutos confirma a generosidade e o desprendimento do nosso amigo, que com o total apoio de sua esposa, Batuíra relaciona o que restava de seu patrimônio e os entrega a sua Instituição para que possa continuar o trabalho de assistência e esperança aos desfavorecidos na vida.

O episódio mais importante da vida do jornal foi a polêmica religiosa travada entre Batuíra e as Damas da Caridade da Diocese de São Paulo por mais de 08 anos, em que ele assinava os artigos com o pseudônimo de “Ninguém”.

Batuíra relatava os casos do Centro Espírita, sobre as curas físicas e espirituais que lá eram obtidas, escrevia sobre os conceitos espíritas, e rebatia as acusações que os católicos faziam sobre o espiritismo. Sua redação era simples, mas correta, e ele alternava momentos de serenidade na linguagem com rigor e agressividade quando necessário, no entanto no centésimo artigo, resolveu assinar “Alguém”. Isso aconteceu em setembro de 1908, alegando que diante de sua consciência, só agora se julgava “Alguém” na Seara de Jesus por haver consolidado a Instituição Verdade e Luz, a qual acabava de doar tudo o que possuía; Parecia que ele já sabia o dia de sua partida para o mundo espiritual.

Anália Franco ( 1853-1918 ), com justiça cognominada A Grande Dama da Educação Brasileira, foi contemporânea e grande amiga de Batuíra.

Anália fundou a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva de São Paulo, que mantinha vários serviços assistenciais à população, destacando-se as escolas e os orfanatos.

Alquebrado pelo peso dos anos, mas sempre mantendo a mesma vitalidade e

ânimo para cuidar de seu próximo, Batuíra aguardava o momento que o Senhor o chamaria de volta ao Seu Aprisco.

Súbita enfermidade o atinge naquele início de 1909 e à primeira hora da manhã do dia 22 o Apóstolo do Espiritismo parte para a outra Vida.

Às 16 horas deste dia seu corpo foi enterrado no Cemitério da Consolação no túmulo em que já estava o corpo do filho, na rua 11, lado direito, túmulo de número 37.

Nesta madrugada, Anália Franco anunciou o desencarne de Batuíra.

Anália amiga muito querida presta-lhe a última homenagem no número 62 da Voz Maternal .

Lamentavelmente na madrugada desta data baixou ao túmulo o ancião de 69 anos, Sr. Antônio Gonçalves da Silva Batuíra.

É fora de dúvida que foi um trabalhador na prática do bem. Fundou há 19 anos, a “ Verdade e luz ”, que incontestavelmente cooperou para o desenvolvimento da Doutrina que abraçou. Foi um devotado apóstolo do bem. Deus o chame a Seu Regaço.

O reformador, entre outras coisas, declarou:

Sua desencarnação representa uma perda sensível ao Espiritismo, de que se constituíra uma tradição viva, sobretudo no que tem de excelente a nossa

Doutrina – a prática do bem.

E após ressaltar-lhe os beneméritos serviços, o órgão da Federação Espírita Brasileira tecia esta feliz comparação.

Por isso, o seu desprendimento, aos 69 anos de existência meritória, foi como um desses crepúsculos sem nuvens, em que o Sol não se esconde, luminoso e sereno, as nossas vistas, senão para ressurgir com um esplendor maior no hemisfério oposto.

Batuíra viveu em carne e osso entre nós até os primeiros anos deste século, sendo edificante e auspiciosa sua trajetória terrena, ele jamais será esquecido pelas obras de caridade que se encontram em plena atividade até hoje.

Muitos foram os que seguiram o trabalho de Batuíra com força e amor no coração, vencendo obstáculos com a ajuda do Cristo. Em 1934 D. Maria Jannoni Novazzi que entrou para a Instituição como Secretária, encontrou-a onerada de dívidas, enorme foram os esforços e com ajuda que nunca se esperava saldaram-se as dívidas e a hipoteca foi paga.

Fundaram então, o abrigo “ Batuíra ”, localizado em Poá, distante 33 km da Capital, em sede própria.

Na cidade de Porto Ferreira é mantida uma Casa Maternal.