Aquecimento Global

  Por: Luís Paulo Sirvinskas

Doutor em Direito Ambiental pela PUCSP

 

1. Conceito de efeito estufa

 

O efeito estufa caracteriza-se pelo isolamento térmico do planeta em decorrência das concentrações de gases na camada atmosférica, impedindo que os raios solares, uma vez refletidos, voltem ao espaço. Tal fenômeno (aquecimento térmico do planeta) ocasionará o degelo dos pólos e a expansão das moléculas da água, aumentando, dessa forma, o nível do mar, além de causar chuvas intensas na Europa, inundações na Ásia, secas na África e proliferação de furacões. [1] Isso, por sua vez, causará inundações das cidades litorâneas e ilhas. Trata-se do conhecido aquecimento global da temperatura da superfície da Terra. O principal responsável pelo efeito estufa é a presença do gás carbônico (CO2) emitido pelas indústrias, veículos automotores e principalmente pela queima de combustível fóssil. A aviação mundial também tem contribuído para o aquecimento global em face das milhares de linhas aéreas que cruzam o planeta, lançando toneladas de poluentes químicos na troposfera.

A Agência Internacional de Energia divulgou, em seu relatório sobre as tendências mundiais de produção e consumo, que as emissões de dióxido de carbono derivado da queima de petróleo crescerão 52% até o ano 2030 se mantidas as tendências atuais de consumo de petróleo. Diz ainda o relatório que a energia crescerá cerca de 5,5 bilhões de toneladas de petróleo — 50% a mais do que hoje — até 2030. Além disso, mais de 80% do crescimento da demanda serão atendidos por combustíveis fósseis [2] . Diferentemente do metano, o dióxido de carbono permanece bem mais tempo no ar e tem uma remoção complexa. com um tempo de permanência efetiva entre cinqüenta e cem anos. Cerca da metade do dióxido de carbono que já adicionamos ao ar permanecerá ali por muito tempo. [3] Há dados científicos que demonstram que o gás metano (CH4) é vinte e uma vezes mais prejudiciais do que o gás carbônico (CO2) apesar de permanecer menos tempo na atmosfera.

          

2. Mudança climática

 

O efeito estufa é um dos principais responsáveis pela mudança climática. E os maiores poluidores são os países desenvolvidos, especialmente os EUA e agora a China país em desenvolvimento, por exemplo. [4] Há outros estudos sérios prevendo que o aquecimento global poderá aumentar de 5,8ºC em 2100, caso as recomendações contidas no Protocolo de Kioto não sejam implementadas imediatamente. Este protocolo pretendia obrigar os países industrializados a reduzir 5% dos poluentes até o ano 2012. Como este documento não foi subscrito pelos principais países, a situação climática mundial se tornará drástica no próximo século. O relatório elaborado pela ONU prevê o aumento da poluição causada pelos EUA, Europa e Japão em 17% até 2010 comparado com 2000. Ainda a título ilustrativo citamos estudo americano publicado recentemente na revista “PNAS” da Academia Nacional de Ciências dos EUA que diz que o aquecimento global nos últimos 30 anos foi maior do que em todo o resto do século 20. Alerta o cientista James Hansen que, nos útimos 30 anos, o planeta esquentou 0,6ºC o que eleva para 0,8ºC o total de aquecimento anormal observado no século 20. Isso faz com que a temperatura média atual seja a maior dos útimos 12 mil anos. Um aquecimento de mais de 1ºC seria o mais alto do último milhão de anos. A última vez que o planeta esteve tão quente foi no Plioceno, há 3 milhões de anos, quando o nível do mar era de 25 metros mais alto que hoje [5] .

Como podemos ver, a vida é tão sensível à temperatura que ela (a temperatura) não poderia ter mudado muito durante a sua presença na Terra. Basta verificar, a título ilustrativo, o verão europeu de 2003 que levou a morte de mais de 30.000 mil pessoas. Temos, além disso, um bom grau de certeza de que o Sol, como todas as estrelas semelhantes, esquenta a medida que envelhece e está agora 25 por cento mais quente do que quando a vida começou. [6]

         Há inúmeros outros dados, estudos e pesquisas demonstrando as conseqüências desse aquecimento. Tal fato compromete os recursos ambientais, estimula a migração da população mais pobre e ocasiona conflitos. Tanto é verdade que um grupo de pesquisadores, liderados pelo climatologista Andrew Weaver, da Universidade de Victoria (Canadá), demonstrou o alto preço que a humanidade terá de pagar para frear o aquecimento global. Estes pesquisadores realizaram uma projeção, utilizando-se de moderno programa de computador para simular o aquecimento global, incluindo dados não previstos em estudos anteriores. Referido estudo foi publicado na revista “Geophysical Research Letters” (www.agu.org/journals/gl). Esclarece ainda tal pesquisa que todo gás carbono (CO²) emitido pela humanidade permanecerá no ar atmosférico por muito tempo (cerca de 1.800 anos). Pensava-se até então que este gás ficaria no ar durante 100 e 400 anos. Este cálculo não levava em conta dados levantados pelos oceanos. Este novo estudo apresentou três cenários sobre o aquecimento global: a) caso não haja redução de CO² até 2050, a temperatura aumentará até 2100 em 2,6ºC e até 2500 em 7,7ºC; b) havendo redução de 60% até 2050, a temperatura aumentará 2ºC até 2100; e c) havendo a redução total das emissões até 2050, a temperatura se manteria estável e aumentaria 1,5ºC até 2500.

        Como podemos ver, mesmo que cessássemos a emissão total de CO², o planeta continuaria esquentando. Este estudo levou em consideração as correntes marinhas onde estão armazenados grande quantidade de gás carbônico. Com o aquecimento global, o gás que estava armazenado no fundo do mar retornaria à superfície, saturando os oceanos que não conseguiria captar mais CO². Tal fato aumentaria ainda mais o aquecimento global. Ou seja, seria necessário afundar a primeira camada do oceano para permitir que o mar continuasse a absorver o gás carbônico. No entanto, os nutrientes de seres vivos que estariam na parte mais funda do mar poderiam trazer mais CO² à superfície.

         Esse novo programa de computador, diz o oceanógrafo brasileiro Álvaro Montenegro também integrante da equipe de Weaver, calcula exatamente a temperatura que teremos, bastando apenas inserir a quantidade de CO² que será jogado ao ar. [7]

         Já é consenso entre os cientistas o rótulo “perigoso” dado ao limite de 2ºC de aumento da temperatura da Terra. Se a temperatura passar de 2ºC, o risco de perder a calota de gelo da Groenlândia é iminente, ocasionando o aumento do nível do mar.

Devemos a partir de então eliminar as emissões de gases de efeito estufa se a humanidade quiser permanecer mais tempo no planeta. O Protocolo de Kioto, nesse contexto, passou a ser inócuo se considerarmos o limite estabelecido de redução de 5% dos poluentes até 2012 em relação a 1990.     

        Não há mais tempo a perder, a venda de carbono também já é página virada. Devemos a partir de então eliminar as emissões de gases de efeito estufa se a humanidade quiser permanecer mais tempo no planeta. Este é o custo da paralisia da humanidade; o descaso dos governantes dos países desenvolvidos. . Não foi a toa que os ambientalistas Rajendra Pacauri, presidente do IPCC, e Al Gore, ex-vice presidente dos USA, receberam o Prêmio Nobel da Paz.

       

3. Alguns impactos da mudança climática

 

        Não vamos esgotar todas as variáveis da mudança climática, mas apenas aquelas mais importantes devido a sua complexidade.

        O grupo de Son Nghiem, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, usou o satélite QuickScat para medir o acúmulo de neve no continente Antártico de 1999 a 2005 e verificou que grande quantidade de neve se derreteu no verão de 2005 e depois se solidificou em forma de gelo. O receio é que haja rachaduras nas geleiras e o escoamento da água poderá servir como lubrificante e aumentar a velocidade do degelo. Se isso correr, o nível global dos oceanos poderá aumentar em vários metros. [8] Registre-se ademais que o Serviço Antártico Britânico usou imagens e radar para monitorar a península Antártica entre 1993 e 2003 e constatou a rapidez com que as massas continentais de gelo estão escorregando em direção aos oceanos, aumentando em 12% no período. O glaciologista David Vaughan publicou estudo na revista Journal of Geophysical Research sustentando que o aumento do nível do mar causado pelo aquecimento global deverá ocorrer mais rapidamente do que se imaginava. Tal estudo se baseou na análise de 300 geleiras durante dez anos. [9] Pesquisador brasileiro também analisou 30 geleiras da Península Antártica entre 2001 e 2005 e constatou a perda de 4.000 m² de áreas com gelo por ano. Glaciólogos esperavam o derretimento, mas não tão intenso. A temperatura média da região subiu cerca de 5ºC no último meio século. [10]

         Alertam os cientistas do Centro Nacional de Dados sobre Gelo e Neve dos EUA, que o gelo marinho do Ártico atingiu no dia 17 de agosto de 2007 sua menor extensão já registrada. É o valor mais baixo desde que a medição teve início em 1970, com a ajuda de satélites. O mínimo registrado era de 5,32 milhões de km², em 2005, hoje está em 5,26 milhões km². O gelo marinho ajuda a manter o equilíbrio térmico do Ártico, pois reflete 80% da luz do sol. A diminuição do gelo faz com que as radiações sejam absorvidas pelo oceano, elevando ainda mais a temperatura da região. O relatório do IPCC alertou que o Ártico poderá ficar sem gelo em 2070 a 2100. Mark Serreze, cientista do centro de pesquisas americanas, disse que se manter esta taxa anual, o Ártico poderá ficar sem gelo em 2030. [11] Tanto é verdade que o nível do mar está subindo duas vezes mais rápido do que há 150 anos e as emissões de gases poluentes são os principais responsáveis. Tal fato pode ser constatado pelo aumento do nível nas costas ao redor do mundo em torno de dois milímetros ao ano, comparado com dados de 1850, cujo aumento estava em torno de um milímetro. Esses estudos foram publicados na revista científica americana Science, cujas amostras foram extraídas de escavações a 500 metros de profundidade na costa de Nova Jersey.

        Especialistas em ecossistemas árticos encontraram fósseis de mamutes e de outros animais pré-históricos após o degelo da Sibéria. A mudança climática está derretendo o permafrost e trazendo a tona restos mortais desses animais. Permafrost é a camada do solo permanentemente congelada do Ártico. Zimov – cientista-chefe da estação científica do nordeste da Academia Russa de Ciências – estuda as mudanças climáticas do Ártico há mais de 30 anos e constatou que, à medida que os restos mortais são expostos ao ar, poderá acelerar o aquecimento global. Além disso, o aparecimento da matéria orgânica desses animais, que estava congelado, começa a entrar em decomposição e as bactérias voltam a se proliferar. Esse fenômeno ocasiona a liberação de gás carbono (CO²), além de emitir gás metano (CH4), contribuindo ainda mais para o aquecimento global. Na região nordeste da Sibéria, há uma área de permafrost onde viveram os mamutes e cobre uma área equivalente às da França e Alemanha somadas. Há ainda outras áreas de permafrost na região da Sibéria. Diz Zimov que os depósitos de matéria orgânica nesses solos são gigantescos que eles apequenam as reservas mundiais de petróleo.

        Dados apresentados pelo IPCC (Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas) informaram que a humanidade emite 7 bilhões de toneladas de carbono por ano e as áreas de permafrost contêm 500 bilhões de toneladas de carbono que podem rapidamente se converter em gases-estufas.

        Relatório, publicado em junho de 2007 pelas Nações Unidas, esclarece não haver sinais de derretimento disseminado do permafrost que possa antecipar rapidamente o aquecimento global, mas aponta como ameaça potencial que pode representar no futuro. Sustenta que a camada superior do permafrost possui mais carbono orgânico do que a atmosfera. [12]

        Outra questão constatada em estudo oceanógrafo publicado na revista inglesa Nature, demonstrou a perda de 30% da força das correntes do Atlântico responsáveis pela harmonia climática planetária. Essas correntes têm por condão evitar o esfriamento das águas do mar em decorrência do degelo das calotas polares. Pesquisadores afirmam que essas correntes estão mais fracas do que em 1957 e não se trata de uma mera variação, mas de uma tendência. E caso se concretize essa tendência, a temperatura média poderá reduzir em 4ºC no noroeste da Europa. Alerta ainda o estudo que se esse movimento se acentuar a cidade de Londres, por exemplo, poderá entrar na era glacial, pois os movimentos das correntes do Golfo do México é o principal responsável pela manutenção dessa harmonia. Registre-se ainda que estudos da agência ambiental da União Européia esclareceram que a Terra esquentou em média de 0,7ºC no período de 20 anos enquanto em 32 nações européias a temperatura média aumentou em 0,95ºC.

Pesquisas constataram ainda que o aquecimento global chegou nas partes mais altas do planeta, tais como, nos glaciares do Alasca, dos Andes e de outras regiões, além das geleiras da Cordilheira do Himalaia onde se localiza o Monte Everest. Ela possui uma extensão de 2.500 quilometros e atravessa cinco países asiáticos (China, Índia, Nepal, Butão e Paquistão). É conhecida por suas montanhas cobertas de neves. A cordilheira é responsável pelo abastecimento de água para uma população de 1,3 bilhão de pessoas. No verão, parte do gelo (15 mil glaciares) se derrete e corre pelos principais rios da região e no inverno as nevascas repõem o gelo derretido. Este ciclo, contudo, vem se alterando, conforme se constata pelo relatório apresentado pelo Icimod – centro de pesquisas dos países da região em parceria com a ONU. Esclarece, citado relatório, que os glaciares vêm encolhendo em velocidade acelerada entre 10 e 60 metros por ano. Na China, 5,5% deles já desaparaceram ao longo das últimas quatro décadas. Estes dados foram colhidos ao longo dos quarenta anos e grande parte dos glaciares do Himalaia poderá desaparecer até 2035. A neve que cai não é suficiente para repor o gelo que se derrete, diz o geólogo Richard Alley, da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA, especialista em glaciares. Caso se confirme o derretimento acelerado dos glaciares, dois tipos de catástrofe poderão ocorrer: a) inundações de cidades que margeiam os rios, provocando pequenos tsunamis; e b) diminuição do volume de água nos rios deixando 500 milhões de pessoas sem água. Interessante ressaltar que a temperatura sobe mais nos pontos mais altos do planeta, seja no Himalaia, nos Andes ou na África, diz o glaciologista Lonnie Thompson, da Universidade do Estado de Ohio. Tal fato se dá pelo calor emanado pelos oceanos que alcançaria a troposfera, justamente onde se encontram os picos gelados (nas altas montanhas do Tibete e do Himalaia, por exemplo). Estas pesquisas mostram que a temperatura sobe mais nas partes mais altas da montanha do que em sua base. Outro exemplo é a diminuição da neve no topo do célebre Monte Kilimanjaro, na Tanzânia. [13]

O cientista Andrés Rivera, do Centro de Estudos Científicos da cidade de Valdivia, no Chile, constatou que a geleira San Rafael, na Patagônia chilena, remanescente da última era glacial, perdeu 12 km nos últimos 136 anos. O principal responsável por este retrocesso foi o aquecimento global que também vem atingido outros ambientes com neve no Chile. Referida geleira nasce nos Campos de Gelo Norte com cerca de 4.200 km² e termina num paredão de gelo banhado pelas águas da Lagoa San Rafael. Ela está localizada a 1.600 km ao sul de Santiago e foi descoberta em 1.575. Esta lagoa depende do fluxo das marés do Oceano Pacífico, a qual está ligada ao mar por vários canais, contribuindo para a sua diminuição. Tal fato foi constatado através de comparação com uma litografia feita em 1871 por uma expedição militar, servindo como referência para a medição. Percebe-se, na comparação, que a frente da geleira perdeu 12 km lineares. Encontram-se na Cordilheira do Andes 76% das geleiras da América do Sul, cobrindo uma superfície de 20.000 km². Nos períodos de estiagem, o gelo serve como reserva de água para o consumo humano. Especialistas convocados pela ONU apresentaram relatório sobre os motivos do aumento da temperatura e constataram que a atividade humana é o principal responsável pelo aquecimento global com 90% de certeza. Este documento ainda aponta um aumento de temperatura na ordem de 1,1 e 6,4 graus Celsius até 2.100. [14]                   

         Outro fenômeno que também deve ser levado em conta é a capacidade de seqüestro de carbono pelos mares. Medições realizadas em 11 estações meteorológicas entre 1981 e 2004 apontaram que os mares austrais absorvem 80 milhões de toneladas de carbono anuais, menos do que deveriam. Isso é mais do que o Brasil emite em um ano, se for excluído o desmatamento. A oceanógrafa Corinne Le Quéré, da Universidade de Est Anglia (Reino Unido) realizou pesquisa, cujo estudo será publicado na revista Science, a qual sustenta que o oceano Austral, que circunda a Antártica, perdeu a capacidade de seqüestrar o gás carbônico emitido por atividades humanas. Essa capacidade está enfraquecendo 10% por década. O oceano absorve 15% de CO² e a mantém armazenado no fundo do mar. Ocorre que o aumento da temperatura decorrente do aquecimento global somado ao buraco na camada de ozônio fez com que os ventos da Antártica tornassem cada vez mais fortes e perversos. Isso transformou o oceano Austral numa espécie de liquidificador, levando tudo o que está no fundo – no caso o carbono – para cima e saturado a superfície. Este fenômeno também afetará a temperatura da Terra no futuro. [15]   

A floresta, como sabemos, exerce várias funções de auto-regulador da temperatura terrestre. Absorve o gás carbono (CO²), principal responsável pelo efeito estufa, e expele O², purificando o ar (fotossíntese). Esse processo envolve a água, sais minerais, terra e energia solar. As copas das árvores mais altas, por outro lado, impedem a penetração dos raios solares no solo, protegendo a floresta que permanece sempre úmida. Sua destruição colocará em risco este processo, pois os raios solares atingirão o solo, ressecando-o, fazendo com que o lençol freático rebaixe. Tal fato poderá transformar a floresta em savana (tipo de cerrado, cujas raízes são mais profundas devido à falta de água). É importante ressaltar que toneladas de gás carbono ficam armazenadas no solo e outra parte nas próprias árvores. Com a queimada, esse gás é liberado no ar, contribuindo ainda mais para o aquecimento global. A floresta, como se vê, ajuda a proteger as bacias hidrográficas e os lençois freáticos e nos períodos de estiagem estes abastecem aquelas. Ela (floresta) também transpira - formando grande quantidade de nuvens - que retorna através das chuvas, ajudando no resfriamento da terra. No entanto, a floresta nem sempre esfria o planeta.

Há outra variável, além dessas, que deve ser levada em conta para se poder analisar o clima e o aquecimento global. O pesquisador Ken Caldeira, do Instituto Carnegie, da Califórnia, publicou artigo na revista científica “PNAS”, sustentando que a presença de florestas na região norte do planeta pode até ajudar no esfriamento global por causa do efeito albedo. Este fenômeno corresponde à quantidade de luz solar refletido ao espaço pela neve e gelo dos pólos. Nesse caso, a floresta não consegue aborver a luz solar, ajudando no esfriamento terrestre. Caso a floresta restante da região norte venha a ser derrubada, no mesmo ritmo atual, o planeta poderá ficar mais frio em torno de seis graus centígrados até 2100. Vê-se, pois, que parte do aumento da temperatura acaba sendo anulado pelo efeito albedo, auto-regulando a temperatura terrestre. Por outro lado, se fosse plantada mais floresta no norte, o efeito poderá ser inverso, ou seja, aumentar a temperatura em torno de seis graus centígrados. Este estudo demonstra que é a floresta localizada no norte que exerce o controle auto-regulador da temperatura (faixa de amortecimento) e não a floresta equatorial. E plantar floresta, dependendo do local, poderá não trazer qualquer benefício ao planeta. [16] Concluí-se, assim, que a ciência vem descobrindo novas funções da floresta. Portanto, qualquer estudo sobre a flora deverá ser levado em conta estas variáveis na análise do aquecimento global, especialmente o efeito albedo.

Especialistas defendem a redução do desmatamento como importante ferramenta de combate ao aquecimento global em artigo publicado, via internet, pela Revista Science americana. Como se sabe o desmatamento e as queimadas liberam grande quantidade de CO² na atmosfera, contribuindo para o agravamento do efeito estufa. A meta é não ultrapasssar a 2º C, mas, para isso, é preciso estabilizar a concentração de CO² em 450 ppm (parte por milhão) até 2100. Atualmente, a concentração é de 380 ppm (parte por milhão). Os estudos restringiram-se ao Brasil e Indonésia onde se concentram as maiores florestas tropicais. Estes países poderiam contribuir com a redução em 12% até 2050, regularizando as chuvas e rios. O Brasil, por possuir a maior floresta tropical, poderia se beneficiar do mercado global de carbono. Contudo, há certa resistência por parte do governo em adotar tal medida, pois isso levaria a necessidade de estabelecer metas e monitoramento de compromissos que ele não quer arcar. [17]

 

4. Relatório do IPCC sobre mudança climática

 

Com a publicação, no dia 6-4-2007, em Bruxelas, Bélgica, do quarto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), ficou demonstrado que até o final do século ocorrerão alterações drásticas, tais como: extinção de espécies da fauna e da flora, falta de água, inundações, furacões e tempestades cada vez mais fortes, aumento do nível do mar etc. Essas conseqüências poderão acontecer caso não se tomem medidas governamentais eficientes para tentar reverter à tendência do aumento da temperatura terrestre.

Tais previsões foram fundamentadas em dados científicos cada vez mais minuciosos elaborados por 18 cientistas de 11 países e analisados por mais de dois mil especialistas durante dois anos. Eles se respaldaram em 29 mil séries de dados de observações dentre 75 estudos científicos. Trata-se, no entanto, de uma realidade inafastável e unânime entre eles. A Floresta Amazônica, no Brasil, poderá se transformar em uma savana por causa do aumento da temperatura, agravando-se ainda mais com o desmatamento e pelas queimadas. Destacou-se ainda que no nordeste brasileiro poderá ser reduzida em até 70% a recarga dos aqüíferos até 2050.

Apurou-se neste relatório que são os pobres que mais sofrerão com o aumento da temperatura, pois eles terão dificuldades em se adaptarem as novas condições, tornando-se um mundo cada vez mais desigual.

O relatório é preocupante e medidas foram apresentadas com o objetivo de minimizar suas conseqüências, buscando fazer com que o homem possa se adaptar as mudanças climáticas. O aumento da temperatura é irreversível, pois quaisquer medidas adotadas hoje poderão levar muito tempo para surtir os efeitos desejados.

 

5. Mitigação da mudança climática

 

No dia 4 de maio de 2007 foi divulgado o sumário executivo da terceira parte do Quarto Relatório de Avaliação da conclusão do IPCC, realizado em Bancoc, Tailândia. Trata-se do documento denominado de Mitigação da Mudança Climática que lista as principais soluções para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, ressaltando que as tecnologias disponíveis como o biocombustível ou a energia nuclear, poderão ajudar no corte do carbono em até 63%, a baixos custos. Há a necessidade de se estabilizar as concentrações de CO² na atmosfera em cerca de 450 ppm (parte por milhão) – o dobro dos níveis pré-industriais – esclarece o IPCC. Para que isso seja possível é preciso que o mundo inteiro reduza suas emissões em 50% a 85% em 2050. Isso só será viável se, após os níveis de emissões atingirem o pico até 2015, começar a declinar a partir daí. Caso contrário, os custos poderão ser muito maiores se deixarmos de tomar as medidas contidas no relatório do IPCC, agora. [18] Foi apresentada, como sugestão por cientistas brasileiros, uma nova tecnologia para a captura de carbono no solo que permitiria armazenar a mais de setecentos metros de profundidade o gás carbônico produzido em algumas atividades, tais como: usina de álcool, termelétricas a carvão etc. Seria ingênuo, no entanto, acreditar que toda essa tecnologia seria suficiente para controlar o efeito estufa. A humanidade, com base nesses dados, precisará olhar para o seu estilo de vida e seus padrões de consumo se quiser minimizar esse impacto ambiental de repercussão planetária. Devemos, a título de exemplo, deixar de comer carne, pois um kilo de carne na casa do consumidor corresponde a 3,7 quilos de carbono emitido, além da água consumida para a sua produção, diz o indiano Rajendra Pachauri, presidente do IPCC. [19] O hábito do consumo de carne bovina, além disso, representa a derrubada de árvores. O impacto causado ao meio ambiente é imenso, calcula-se que cada 2 milhões de hectares desmatados ou queimados – área média derrubada anualmente na Amazônia – emitem o equivalente a 200 milhões de toneladas de carbono, mais do que todos os carros brasileiros juntos. Ressalte-se, ademais, que, segundo o relatório do IPCC, um bovino emite cerca de 57,5 quilos de gás metano por ano. Multiplicando-se 57,5 quilos por 1,2 bilhão de bovino do planeta, soma-se cerca de 69 milhões toneladas de gás metano lançados anualmente no ar e os arroutos desses animais (por serem ruminantes) emitem gases, contribuindo, desta forma, para o aquecimento global. A diminuição do consumo de carne poderia trazer uma contribuição substancial ao planeta. [20] Não será nada fácil implementar estas medidas diante das divergências e resistências dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas temos que tentar. Será muito difícil também mudar o hábito do consumo de carne por parte da população, por exemplo.    

Especialistas, por causa disso, defendem a redução do desmatamento como importante ferramenta de combate ao aquecimento global em artigo publicado, via internet, pela Revista Science americana. Como se sabe, o desmatamento e as queimadas liberam grande quantidade de CO² na atmosfera, contribuindo para o agravamento do efeito estufa. A meta é não ultrapasssar a 2º C, mas, para isso, é preciso estabilizar a concentração de CO² em 450 ppm (parte por milhão) até 2100. Atualmente, a concentração é de 380 ppm (parte por milhão). Os estudos restringiram-se ao Brasil e Indonésia onde se concentram as maiores florestas tropicais. Estes países poderiam contribuir com a redução em 12% até 2050, regularizando as chuvas e rios. O Brasil, por possuir a maior floresta tropical, poderia se beneficiar do mercado global de carbono. Contudo, há certa resistência por parte do governo em adotar tal medida, pois isso levaria a necessidade de estabelecer metas e monitoramento de compromissos que ele não quer arcar. [21]

Com este espírito de querer dar sua contribuição é que prefeitos de 32 cidades mais importantes do mundo, dentre elas São Paulo, Rio de Janeiro de Curitiba, representando cerca de 250 milhões de pessoas, reuniram-se na cidade de Nova York no dia 15 de maio de 2007, para discutirem propostas para reduzir em 30% as emissões de gases-estufa até 2030, antecipando eventuais medidas dos governos federais no que tange ao combate ao aquecimento global. Relatório da WWF apontou vinte e cinco tecnologias conhecidas que podem ser adotadas até 2050 para estabilizar o clima. Se tais medidas forem implementadas em cinco anos, haverá 90% de probabilidade das emissões globais de carbono sofrerem redução entre 60% e 80%. [22]

Como dizia o argentino Osvaldo Canziani, co-presidente do grupo de trabalho do IPCC, “algum dia aprenderemos, as pessoas aprendem quando apanham”. A surra climática já começou, resta apenas acudir quem está sentindo. Como se vê, estamos passando por situações cada vez mais difíceis, mas não podemos esmorecer. Devemos continuar lutando na tentativa de minimizar as conseqüências do aquecimento global.

 

 

 



[1] . Nos últimos 100 anos, média de tormentas no Atlântico Norte duplicou (Aquecimento global causa proliferação de furacões, Folha de S. Paulo, de 30 jul 2007, p. A-11).

[2] . Nota da redação publicada na Folha Ciência, Folha de S. Paulo, 8 nov. 2005, p. A-15.

[3] . James Lovelock, A vingança de gaita, traduzido por Ivo Korytowski, Intrínseca, 2006, p. 79.

[4] . China passa os EUA e se torna o maior poluidor. Trata-se de dados divulgados pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental, com base em estatísticas da empresa British Petroleum. A China lançou na atmosfera em 2006 6,2 bilhões de toneladas de CO², contra 5,8 bilhões dos EUA (Folha de S. Paulo, de 21 jun. 2007, p. A-17).

[5] . Terra aquece 0,2ºC por década, diz Nasa, Folha de S. Paulo, Caderno Ciência, 26 de setembro de 2006, p. A16. James Lovelock ensina que o “nível do mar era 120 metros abaixo do atual, e terras com área equivalente à do continente africano, agora submersas, estavam acima do nível do mar. Grande parte dessa terra extra situava-se no sudeste da Ásia, o que pode explicar como a Austrália foi alcançada pelo homem durante a era glacial: a distância era bem curta para ser transposta em balsas ou barcos simples. Imagine-se que existiu uma civilização com cidades, 12 mil anos atrás, na costa sul daquele continente asiático prolongando. Quem dentre eles teria acreditado num pioneiro da previsão do clima que insistisse que logo estariam 120 metros sob o oceano?” (A vingança...cit., p. 60).

[6] . James Lovelock, cit., p.69.

[7] . Rafael Garcia, Só corte total de CO² cura clima pós-2100, Folha de S. Paulo, Ciência, de 15 out 2007, p. A-15.

[8] . Derretimento de neve no continente equivale a um Estado de SP em 2005, Folha de S. Paulo, de 17 mai. 2005, p. A-12.

[9] . Degelo acelera 12% em terras da Antártica, Folha de S. Paulo, de 6 jun. 2007, p. A-16.

[10] . Península Antártica sofre degelo rápido, Folha de S. Paulo, Ciência, de 1º out 2007, p. A-14.

[11] . Gelo marinho ártico chega à menor extensão já vista, Folha de S. Paulo, 20 ago 2007, p. A-15.

[12] . Dimitry Solovyov, A vingança do mamute, Folha de S. Paulo, de 23 set 2007, Caderno Mais, p. 9. 

[13] . Leoleli Camargo, Aquecimento nas alturas, Revista Veja, edição 2019, ano 40, n. 30, ano, 1º ago 2007, p. 116-118

[14] . Site: www.uol.com.br, acesso em 6 nov. 2007.

[15] . Cláudio Angelo, Aquecimento satura ralo de carbono oceânico, Folha de S. Paulo, de 18 mai. 2007, p. A-18.

[16] . Eduardo Geraque, Floresta, nem sempre, esfria o planeta, Folha de S. Paulo, de 10 abr. 2007, p. A-12.

[17] . A utilidade das florestas, Editoriais, Folha de S. Paulo, de 13 mai. 2007, p. A-2.

[18] . Cláudio Angelo, IPCC mostra caminho para curar o clima, Folha de S. Paulo, de 5 mai. 2007, p. A-29.

[19] . Cláudio Angelo, Crise do clima precede guinada cultural, Folha de S. Paulo, de 6 mai. 2007, p. A-31.

[20] . Romildo Campello, Aquecimento global: “apocalipse now” não, Mogi News Revista, ano II, n. 16, junho 2007, p. 82.

[21] . A utilidade das florestas, Editoriais, Folha de S. Paulo, de 13 mai. 2007, p. A-2.

[22] . Denyse Godoy, Metrópoles querem agir antes no clima, Folha de S. Paulo, de 16 mai. 2007, p. A-12.