Aquecimento Global
Doutor
1. Conceito de efeito estufa
O efeito
estufa caracteriza-se pelo isolamento térmico do planeta em decorrência das
concentrações de gases na camada atmosférica, impedindo que os raios solares,
uma vez refletidos, voltem ao espaço. Tal fenômeno (aquecimento térmico do
planeta) ocasionará o degelo dos pólos e a expansão das moléculas da água,
aumentando, dessa forma, o nível do mar, além de causar chuvas intensas na
Europa, inundações na Ásia, secas na África e proliferação de furacões.
[1]
Isso, por sua vez, causará inundações das cidades litorâneas e ilhas. Trata-se
do conhecido aquecimento global da temperatura da superfície da Terra. O principal
responsável pelo efeito estufa é a presença do gás carbônico (CO2)
emitido pelas indústrias, veículos automotores e principalmente pela queima de
combustível fóssil. A aviação mundial também tem contribuído para o aquecimento
global em face das milhares de linhas aéreas que cruzam o planeta, lançando
toneladas de poluentes químicos na troposfera.
A
Agência Internacional de Energia divulgou, em seu relatório sobre as tendências
mundiais de produção e consumo, que as emissões de dióxido de carbono derivado
da queima de petróleo crescerão 52% até o ano 2030 se mantidas as tendências
atuais de consumo de petróleo. Diz ainda o relatório que a energia crescerá
cerca de 5,5 bilhões de toneladas de petróleo — 50% a mais do que hoje — até
2030. Além disso, mais de 80% do crescimento da demanda serão atendidos por
combustíveis fósseis
[2]
.
Diferentemente do metano, o dióxido de carbono permanece bem mais tempo no ar e
tem uma remoção complexa. com um tempo de permanência efetiva entre cinqüenta e
cem anos. Cerca da metade do dióxido de carbono que já adicionamos ao ar
permanecerá ali por muito tempo.
[3]
Há dados científicos que demonstram que o gás metano (CH4) é vinte e uma vezes
mais prejudiciais do que o gás carbônico (CO2) apesar de permanecer menos tempo
na atmosfera.
2. Mudança climática
O
efeito estufa é um dos principais responsáveis pela mudança climática. E os
maiores poluidores são os países desenvolvidos, especialmente os EUA e agora a
China país em desenvolvimento, por exemplo.
[4]
Há outros estudos sérios prevendo que o aquecimento global poderá aumentar de
5,8ºC em 2100, caso as recomendações contidas no Protocolo de Kioto não sejam
implementadas imediatamente. Este protocolo pretendia obrigar os países
industrializados a reduzir 5% dos poluentes até o ano 2012. Como este documento
não foi subscrito pelos principais países, a situação climática mundial se
tornará drástica no próximo século. O relatório elaborado pela ONU prevê o
aumento da poluição causada pelos EUA, Europa e Japão em 17% até 2010 comparado
com 2000. Ainda a título ilustrativo citamos estudo americano publicado
recentemente na revista “PNAS” da Academia Nacional de Ciências dos EUA que diz
que o aquecimento global nos últimos 30 anos foi maior do que em todo o resto
do século 20. Alerta o cientista James Hansen que, nos útimos 30 anos, o
planeta esquentou 0,6ºC o que eleva para 0,8ºC o total de aquecimento anormal
observado no século 20. Isso faz com que a temperatura média atual seja a maior
dos útimos 12 mil anos. Um aquecimento de mais de 1ºC seria o mais alto do
último milhão de anos. A última vez que o planeta esteve tão quente foi no
Plioceno, há 3 milhões de anos, quando o nível do mar era de
Como
podemos ver, a vida é tão sensível à temperatura que ela (a temperatura) não
poderia ter mudado muito durante a sua presença na Terra. Basta verificar, a
título ilustrativo, o verão europeu de 2003 que levou a morte de mais de 30.000
mil pessoas. Temos, além disso, um bom grau de certeza de que o Sol, como todas
as estrelas semelhantes, esquenta a medida que envelhece e está agora 25 por
cento mais quente do que quando a vida começou.
[6]
Há inúmeros outros dados, estudos e
pesquisas demonstrando as conseqüências desse aquecimento. Tal fato compromete
os recursos ambientais, estimula a migração da população mais pobre e ocasiona
conflitos. Tanto é verdade que um grupo de pesquisadores, liderados pelo
climatologista Andrew Weaver, da Universidade de Victoria (Canadá), demonstrou
o alto preço que a humanidade terá de pagar para frear o aquecimento global.
Estes pesquisadores realizaram uma projeção, utilizando-se de moderno programa
de computador para simular o aquecimento global, incluindo dados não previstos
em estudos anteriores. Referido estudo foi publicado na revista “Geophysical
Research Letters” (www.agu.org/journals/gl).
Esclarece ainda tal pesquisa que todo gás carbono (CO²) emitido pela humanidade
permanecerá no ar atmosférico por muito tempo (cerca de 1.800 anos). Pensava-se
até então que este gás ficaria no ar durante 100 e 400 anos. Este cálculo não
levava em conta dados levantados pelos oceanos. Este novo estudo apresentou
três cenários sobre o aquecimento global: a) caso não haja redução de CO² até
Como podemos ver, mesmo que cessássemos
a emissão total de CO², o planeta continuaria esquentando. Este estudo levou em
consideração as correntes marinhas onde estão armazenados grande quantidade de
gás carbônico. Com o aquecimento global, o gás que estava armazenado no fundo
do mar retornaria à superfície, saturando os oceanos que não conseguiria captar
mais CO². Tal fato aumentaria ainda mais o aquecimento global. Ou seja, seria
necessário afundar a primeira camada do oceano para permitir que o mar
continuasse a absorver o gás carbônico. No entanto, os nutrientes de seres
vivos que estariam na parte mais funda do mar poderiam trazer mais CO² à
superfície.
Esse novo programa de computador, diz
o oceanógrafo brasileiro Álvaro Montenegro também integrante da equipe de
Weaver, calcula exatamente a temperatura que teremos, bastando apenas inserir a
quantidade de CO² que será jogado ao ar.
[7]
Já é consenso entre os cientistas o
rótulo “perigoso” dado ao limite de 2ºC de aumento da temperatura da Terra. Se
a temperatura passar de 2ºC, o risco de perder a calota de gelo da Groenlândia
é iminente, ocasionando o aumento do nível do mar.
Devemos
a partir de então eliminar as emissões de gases de efeito estufa se a
humanidade quiser permanecer mais tempo no planeta. O Protocolo de Kioto, nesse
contexto, passou a ser inócuo se considerarmos o limite estabelecido de redução
de 5% dos poluentes até 2012 em relação a 1990.
Não há mais tempo a perder, a venda de
carbono também já é página virada. Devemos a partir de então eliminar as
emissões de gases de efeito estufa se a humanidade quiser permanecer mais tempo
no planeta. Este é o custo da paralisia da humanidade; o descaso dos
governantes dos países desenvolvidos. . Não foi a toa que os ambientalistas
Rajendra Pacauri, presidente do IPCC, e Al Gore, ex-vice presidente dos USA,
receberam o Prêmio Nobel da Paz.
3. Alguns impactos da mudança climática
Não vamos esgotar todas as variáveis da
mudança climática, mas apenas aquelas mais importantes devido a sua
complexidade.
O grupo de Son Nghiem, do Laboratório
de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, usou o satélite QuickScat para medir o
acúmulo de neve no continente Antártico de
Alertam os cientistas do Centro
Nacional de Dados sobre Gelo e Neve dos EUA, que o gelo marinho do Ártico
atingiu no dia 17 de agosto de 2007 sua menor extensão já registrada. É o valor
mais baixo desde que a medição teve início em 1970, com a ajuda de satélites. O
mínimo registrado era de 5,32 milhões de km², em 2005, hoje está em 5,26
milhões km². O gelo marinho ajuda a manter o equilíbrio térmico do Ártico, pois
reflete 80% da luz do sol. A diminuição do gelo faz com que as radiações sejam
absorvidas pelo oceano, elevando ainda mais a temperatura da região. O
relatório do IPCC alertou que o Ártico poderá ficar sem gelo em
Especialistas em ecossistemas árticos
encontraram fósseis de mamutes e de outros animais pré-históricos após o degelo
da Sibéria. A mudança climática está derretendo o permafrost e trazendo a tona
restos mortais desses animais. Permafrost é a camada do solo permanentemente
congelada do Ártico. Zimov – cientista-chefe da estação científica do nordeste
da Academia Russa de Ciências – estuda as mudanças climáticas do Ártico há mais
de 30 anos e constatou que, à medida que os restos mortais são expostos ao ar,
poderá acelerar o aquecimento global. Além disso, o aparecimento da matéria
orgânica desses animais, que estava congelado, começa a entrar em decomposição
e as bactérias voltam a se proliferar. Esse fenômeno ocasiona a liberação de
gás carbono (CO²), além de emitir gás metano (CH4), contribuindo ainda mais
para o aquecimento global. Na região nordeste da Sibéria, há uma área de
permafrost onde viveram os mamutes e cobre uma área equivalente às da França e
Alemanha somadas. Há ainda outras áreas de permafrost na região da Sibéria. Diz
Zimov que os depósitos de matéria orgânica nesses solos são gigantescos que
eles apequenam as reservas mundiais de petróleo.
Dados apresentados pelo IPCC (Painel
Intergovernamental das Mudanças Climáticas) informaram que a humanidade emite 7
bilhões de toneladas de carbono por ano e as áreas de permafrost contêm 500 bilhões
de toneladas de carbono que podem rapidamente se converter em gases-estufas.
Relatório, publicado em junho de 2007
pelas Nações Unidas, esclarece não haver sinais de derretimento disseminado do
permafrost que possa antecipar rapidamente o aquecimento global, mas aponta
como ameaça potencial que pode representar no futuro. Sustenta que a camada
superior do permafrost possui mais carbono orgânico do que a atmosfera.
[12]
Outra questão constatada em estudo
oceanógrafo publicado na revista inglesa Nature, demonstrou a perda de 30% da força das correntes do Atlântico responsáveis
pela harmonia climática planetária. Essas correntes têm por condão evitar o
esfriamento das águas do mar em decorrência do degelo das calotas polares.
Pesquisadores afirmam que essas correntes estão mais fracas do que em 1957 e
não se trata de uma mera variação, mas de uma tendência. E caso se concretize
essa tendência, a temperatura média poderá reduzir em 4ºC no noroeste da
Europa. Alerta ainda o estudo que se esse movimento se acentuar a cidade de
Londres, por exemplo, poderá entrar na era glacial, pois os movimentos das
correntes do Golfo do México é o principal responsável pela manutenção dessa
harmonia. Registre-se ainda que estudos da agência ambiental da União Européia
esclareceram que a Terra esquentou em média de 0,7ºC no período de 20 anos
enquanto em 32 nações européias a temperatura média aumentou em 0,95ºC.
Pesquisas
constataram ainda que o aquecimento global chegou nas partes mais altas do
planeta, tais como, nos glaciares do Alasca, dos Andes e de outras regiões,
além das geleiras da Cordilheira do Himalaia onde se localiza o Monte Everest.
Ela possui uma extensão de 2.500 quilometros e atravessa cinco países asiáticos
(China, Índia, Nepal, Butão e Paquistão). É conhecida por suas montanhas
cobertas de neves. A cordilheira é responsável pelo abastecimento de água para
uma população de 1,3 bilhão de pessoas. No verão, parte do gelo (15 mil
glaciares) se derrete e corre pelos principais rios da região e no inverno as
nevascas repõem o gelo derretido. Este ciclo, contudo, vem se alterando,
conforme se constata pelo relatório apresentado pelo Icimod – centro de
pesquisas dos países da região em parceria com a ONU. Esclarece, citado
relatório, que os glaciares vêm encolhendo em velocidade acelerada entre 10 e
O
cientista Andrés Rivera, do Centro de Estudos Científicos da cidade de
Valdivia, no Chile, constatou que a geleira San Rafael, na Patagônia chilena,
remanescente da última era glacial, perdeu
Outro fenômeno que também deve ser
levado em conta é a capacidade de seqüestro de carbono pelos mares. Medições
realizadas em 11 estações meteorológicas entre 1981 e 2004 apontaram que os
mares austrais absorvem 80 milhões de toneladas de carbono anuais, menos do que
deveriam. Isso é mais do que o Brasil emite em um ano, se for excluído o
desmatamento. A oceanógrafa Corinne Le Quéré, da Universidade de Est Anglia
(Reino Unido) realizou pesquisa, cujo estudo será publicado na revista Science, a qual sustenta que o oceano
Austral, que circunda a Antártica, perdeu a capacidade de seqüestrar o gás
carbônico emitido por atividades humanas. Essa capacidade está enfraquecendo
10% por década. O oceano absorve 15% de CO² e a mantém armazenado no fundo do
mar. Ocorre que o aumento da temperatura decorrente do aquecimento global
somado ao buraco na camada de ozônio fez com que os ventos da Antártica
tornassem cada vez mais fortes e perversos. Isso transformou o oceano Austral
numa espécie de liquidificador, levando tudo o que está no fundo – no caso o
carbono – para cima e saturado a superfície. Este fenômeno também afetará a
temperatura da Terra no futuro.
[15]
A
floresta, como sabemos, exerce várias funções de auto-regulador da temperatura
terrestre. Absorve o gás carbono (CO²), principal responsável pelo efeito
estufa, e expele O², purificando o ar (fotossíntese). Esse processo envolve a
água, sais minerais, terra e energia solar. As copas das árvores mais altas,
por outro lado, impedem a penetração dos raios solares no solo, protegendo a
floresta que permanece sempre úmida. Sua destruição colocará em risco este
processo, pois os raios solares atingirão o solo, ressecando-o, fazendo com que
o lençol freático rebaixe. Tal fato poderá transformar a floresta em savana
(tipo de cerrado, cujas raízes são mais profundas devido à falta de água). É
importante ressaltar que toneladas de gás carbono ficam armazenadas no solo e
outra parte nas próprias árvores. Com a queimada, esse gás é liberado no ar,
contribuindo ainda mais para o aquecimento global. A floresta, como se vê,
ajuda a proteger as bacias hidrográficas e os lençois freáticos e nos períodos
de estiagem estes abastecem aquelas. Ela (floresta) também transpira - formando
grande quantidade de nuvens - que retorna através das chuvas, ajudando no
resfriamento da terra. No entanto, a floresta nem sempre esfria o planeta.
Há
outra variável, além dessas, que deve ser levada em conta para se poder
analisar o clima e o aquecimento global. O pesquisador Ken Caldeira, do
Instituto Carnegie, da Califórnia, publicou artigo na revista científica
“PNAS”, sustentando que a presença de florestas na região norte do planeta pode
até ajudar no esfriamento global por causa do efeito albedo. Este fenômeno
corresponde à quantidade de luz solar refletido ao espaço pela neve e gelo dos
pólos. Nesse caso, a floresta não consegue aborver a luz solar, ajudando no
esfriamento terrestre. Caso a floresta restante da região norte venha a ser
derrubada, no mesmo ritmo atual, o planeta poderá ficar mais frio em torno de
seis graus centígrados até 2100. Vê-se, pois, que parte do aumento da
temperatura acaba sendo anulado pelo efeito albedo, auto-regulando a
temperatura terrestre. Por outro lado, se fosse plantada mais floresta no
norte, o efeito poderá ser inverso, ou seja, aumentar a temperatura em torno de
seis graus centígrados. Este estudo demonstra que é a floresta localizada no
norte que exerce o controle auto-regulador da temperatura (faixa de
amortecimento) e não a floresta equatorial. E plantar floresta, dependendo do
local, poderá não trazer qualquer benefício ao planeta.
[16]
Concluí-se, assim, que a ciência vem descobrindo novas funções da floresta.
Portanto, qualquer estudo sobre a flora deverá ser levado em conta estas
variáveis na análise do aquecimento global, especialmente o efeito albedo.
Especialistas
defendem a redução do desmatamento como importante ferramenta de combate ao
aquecimento global em artigo publicado, via internet, pela Revista Science americana. Como se sabe o desmatamento e as
queimadas liberam grande quantidade de CO² na atmosfera, contribuindo para o
agravamento do efeito estufa. A meta é não ultrapasssar a 2º C, mas, para isso,
é preciso estabilizar a concentração de CO² em 450 ppm (parte por milhão) até
2100. Atualmente, a concentração é de 380 ppm (parte por milhão). Os estudos
restringiram-se ao Brasil e Indonésia onde se concentram as maiores florestas
tropicais. Estes países poderiam contribuir com a redução em 12% até 2050,
regularizando as chuvas e rios. O Brasil, por possuir a maior floresta
tropical, poderia se beneficiar do mercado global de carbono. Contudo, há certa
resistência por parte do governo em adotar tal medida, pois isso levaria a
necessidade de estabelecer metas e monitoramento de compromissos que ele não
quer arcar.
[17]
4. Relatório do IPCC sobre mudança
climática
Com
a publicação, no dia 6-4-2007, em Bruxelas, Bélgica, do quarto relatório do
IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), ficou demonstrado que
até o final do século ocorrerão alterações drásticas, tais como: extinção de
espécies da fauna e da flora, falta de água, inundações, furacões e tempestades
cada vez mais fortes, aumento do nível do mar etc. Essas conseqüências poderão
acontecer caso não se tomem medidas governamentais eficientes para tentar
reverter à tendência do aumento da temperatura terrestre.
Tais
previsões foram fundamentadas em dados científicos cada vez mais minuciosos
elaborados por 18 cientistas de 11 países e analisados por mais de dois mil
especialistas durante dois anos. Eles se respaldaram em 29 mil séries de dados
de observações dentre 75 estudos científicos. Trata-se, no entanto, de uma
realidade inafastável e unânime entre eles. A Floresta Amazônica, no Brasil,
poderá se transformar em uma savana por causa do aumento da temperatura,
agravando-se ainda mais com o desmatamento e pelas queimadas. Destacou-se ainda
que no nordeste brasileiro poderá ser reduzida em até 70% a recarga dos
aqüíferos até 2050.
Apurou-se
neste relatório que são os pobres que mais sofrerão com o aumento da
temperatura, pois eles terão dificuldades em se adaptarem as novas condições,
tornando-se um mundo cada vez mais desigual.
O
relatório é preocupante e medidas foram apresentadas com o objetivo de
minimizar suas conseqüências, buscando fazer com que o homem possa se adaptar
as mudanças climáticas. O aumento da temperatura é irreversível, pois quaisquer
medidas adotadas hoje poderão levar muito tempo para surtir os efeitos
desejados.
5. Mitigação da mudança climática
No
dia 4 de maio de 2007 foi divulgado o sumário executivo da terceira parte do
Quarto Relatório de Avaliação da conclusão do IPCC, realizado em Bancoc,
Tailândia. Trata-se do documento denominado de Mitigação da Mudança Climática que lista as principais soluções
para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, ressaltando que as
tecnologias disponíveis como o biocombustível ou a energia nuclear, poderão
ajudar no corte do carbono em até 63%, a baixos custos. Há a necessidade de se
estabilizar as concentrações de CO² na atmosfera em cerca de 450 ppm (parte por
milhão) – o dobro dos níveis pré-industriais – esclarece o IPCC. Para que isso
seja possível é preciso que o mundo inteiro reduza suas emissões em 50% a 85%
em 2050. Isso só será viável se, após os níveis de emissões atingirem o pico
até 2015, começar a declinar a partir daí. Caso contrário, os custos poderão
ser muito maiores se deixarmos de tomar as medidas contidas no relatório do
IPCC, agora.
[18]
Foi apresentada, como sugestão por cientistas brasileiros, uma nova tecnologia
para a captura de carbono no solo que permitiria armazenar a mais de setecentos
metros de profundidade o gás carbônico produzido em algumas atividades, tais
como: usina de álcool, termelétricas a carvão etc. Seria ingênuo, no entanto,
acreditar que toda essa tecnologia seria suficiente para controlar o efeito
estufa. A humanidade, com base nesses dados, precisará olhar para o seu estilo
de vida e seus padrões de consumo se quiser minimizar esse impacto ambiental de
repercussão planetária. Devemos, a título de exemplo, deixar de comer carne,
pois um kilo de carne na casa do consumidor corresponde a 3,7 quilos de carbono
emitido, além da água consumida para a sua produção, diz o indiano Rajendra
Pachauri, presidente do IPCC.
[19]
O hábito do consumo de carne bovina, além disso, representa a derrubada de
árvores. O impacto causado ao meio ambiente é imenso, calcula-se que cada 2
milhões de hectares desmatados ou queimados – área média derrubada anualmente
na Amazônia – emitem o equivalente a 200 milhões de toneladas de carbono, mais
do que todos os carros brasileiros juntos. Ressalte-se, ademais, que, segundo o
relatório do IPCC, um bovino emite cerca de 57,5 quilos de gás metano por ano.
Multiplicando-se 57,5 quilos por 1,2 bilhão de bovino do planeta, soma-se cerca
de 69 milhões toneladas de gás metano lançados anualmente no ar e os arroutos
desses animais (por serem ruminantes) emitem gases, contribuindo, desta forma,
para o aquecimento global. A diminuição do consumo de carne poderia trazer uma
contribuição substancial ao planeta.
[20]
Não será nada fácil implementar estas medidas diante das divergências e
resistências dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, mas temos que
tentar. Será muito difícil também mudar o hábito do consumo de carne por parte
da população, por exemplo.
Especialistas,
por causa disso, defendem a redução do desmatamento como importante ferramenta
de combate ao aquecimento global em artigo publicado, via internet, pela Revista Science americana. Como se sabe,
o desmatamento e as queimadas liberam grande quantidade de CO² na atmosfera,
contribuindo para o agravamento do efeito estufa. A meta é não ultrapasssar a
2º C, mas, para isso, é preciso estabilizar a concentração de CO² em 450 ppm
(parte por milhão) até 2100. Atualmente, a concentração é de 380 ppm (parte por
milhão). Os estudos restringiram-se ao Brasil e Indonésia onde se concentram as
maiores florestas tropicais. Estes países poderiam contribuir com a redução em
12% até 2050, regularizando as chuvas e rios. O Brasil, por possuir a maior
floresta tropical, poderia se beneficiar do mercado global de carbono. Contudo,
há certa resistência por parte do governo em adotar tal medida, pois isso
levaria a necessidade de estabelecer metas e monitoramento de compromissos que
ele não quer arcar.
[21]
Com
este espírito de querer dar sua contribuição é que prefeitos de 32 cidades mais
importantes do mundo, dentre elas São Paulo, Rio de Janeiro de Curitiba,
representando cerca de 250 milhões de pessoas, reuniram-se na cidade de Nova
York no dia 15 de maio de 2007, para discutirem propostas para reduzir em 30%
as emissões de gases-estufa até 2030, antecipando eventuais medidas dos
governos federais no que tange ao combate ao aquecimento global. Relatório da
WWF apontou vinte e cinco tecnologias conhecidas que podem ser adotadas até
2050 para estabilizar o clima. Se tais medidas forem implementadas em cinco
anos, haverá 90% de probabilidade das emissões globais de carbono sofrerem
redução entre 60% e 80%.
[22]
Como
dizia o argentino Osvaldo Canziani, co-presidente do grupo de trabalho do IPCC,
“algum dia aprenderemos, as pessoas aprendem quando apanham”. A surra climática
já começou, resta apenas acudir quem está sentindo. Como se vê, estamos
passando por situações cada vez mais difíceis, mas não podemos esmorecer.
Devemos continuar lutando na tentativa de minimizar as conseqüências do
aquecimento global.
[1] . Nos últimos 100 anos, média de tormentas no Atlântico Norte duplicou (Aquecimento global causa proliferação de furacões, Folha de S. Paulo, de 30 jul 2007, p. A-11). [2] . Nota da redação publicada na Folha Ciência, Folha de S. Paulo, 8 nov. 2005, p. A-15. [3] . James Lovelock, A vingança de gaita, traduzido por Ivo Korytowski, Intrínseca, 2006, p. 79.
[4]
. China passa os EUA e se torna o
maior poluidor. Trata-se de dados divulgados pela Agência Holandesa de
Avaliação Ambiental, com base em estatísticas da empresa British Petroleum. A China lançou na atmosfera em 2006 6,2 bilhões
de toneladas de CO², contra 5,8 bilhões dos EUA (Folha de S. Paulo, de 21 jun. 2007, p. A-17).
[5]
. Terra aquece 0,2ºC por década,
diz Nasa, Folha de S. Paulo, Caderno
Ciência, 26 de setembro de 2006, p. A16. James Lovelock ensina que o “nível do
mar era
[6] . James Lovelock, cit., p.69.
[7]
. Rafael Garcia, Só corte total de
CO² cura clima pós-2100, Folha de S.
Paulo, Ciência, de 15 out 2007, p. A-15.
[8]
. Derretimento de neve no
continente equivale a um Estado de SP em 2005, Folha de S. Paulo, de 17 mai. 2005, p. A-12.
[9]
. Degelo acelera 12% em terras da
Antártica, Folha de S. Paulo, de 6
jun. 2007, p. A-16.
[10] . Península Antártica sofre degelo rápido, Folha de S. Paulo, Ciência, de 1º out 2007, p. A-14.
[11]
. Gelo marinho ártico chega à menor
extensão já vista, Folha de S. Paulo,
20 ago 2007, p. A-15.
[12] . Dimitry Solovyov, A vingança do mamute, Folha de S. Paulo, de 23 set 2007, Caderno Mais, p. 9.
[13]
. Leoleli Camargo, Aquecimento nas
alturas, Revista Veja, edição 2019,
ano 40, n. 30, ano, 1º ago 2007, p. 116-118
[14] . Site: www.uol.com.br, acesso em 6 nov. 2007.
[15]
. Cláudio Angelo, Aquecimento
satura ralo de carbono oceânico, Folha de
S. Paulo, de 18 mai. 2007, p. A-18.
[16]
. Eduardo Geraque, Floresta, nem
sempre, esfria o planeta, Folha de S.
Paulo, de 10 abr. 2007, p. A-12.
[17]
. A utilidade das florestas,
Editoriais, Folha de S. Paulo, de 13
mai. 2007, p. A-2.
[18]
. Cláudio Angelo, IPCC mostra
caminho para curar o clima, Folha de S.
Paulo, de 5 mai. 2007, p. A-29.
[19] . Cláudio Angelo, Crise do clima precede guinada cultural, Folha de S. Paulo, de 6 mai. 2007, p. A-31.
[20]
. Romildo Campello, Aquecimento
global: “apocalipse now” não, Mogi News
Revista, ano II, n. 16, junho 2007, p. 82.
[21]
. A utilidade das florestas,
Editoriais, Folha de S. Paulo, de 13
mai. 2007, p. A-2.
[22]
. Denyse Godoy, Metrópoles querem
agir antes no clima, Folha de S. Paulo,
de 16 mai. 2007, p. A-12.
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